Santo André.

Depois de uma batida suja e tensa em um ambulatório clandestino — Catalina empurrando pilhas de caixas pelos fundos enquanto eu esperava ligando um fusca tunado numa viela complicada —, voltamos para o trailer desmilinguido encravado perto de uma vila desativada. A visão, inconfundível: fumaça erguendo-se de uma chaminé torta, um par de cabeças de veado na grade, garrafas vazias de bour-bo fazendo a única poltrona reclinável cheirar a bebida azeda e cachaça barata. “Conta, garoto. Conta tudinho pra mamãe.” Catalina sentou-se sobre o braço quebrado de um sofá rasgado, sacudindo o pé como uma mola prestes a estourar. Eu entreguei o saco, contei: vinte e três mil. Ela não esperou o segundo seguinte — o riso dela, algo entre uma hiena com asma e estática de rádio, ecoou na parede coberta de mapas rabiscados e fotografias manchadas de suor. “Viu só? Viu só, seu merdinha distraído? Eu disse que aquilo ia dar prêmio gordo.” Ela inclinou a garrafa, bebeu direto — metade desceu, metade escorreu pelo buraco de uma gargalhada inútil. Não ficou bêbada, não mesmo. Ficou possessa, aquele frenesi degenerado que a torna imprevisível, perigosa. “Ainda falta, né, amorzinho? Falta um tiquinho pra San Fierro, um trizinho pros cassinos novos que tão brotando...” Eu me levantei, meti a mão na cintura e colei uma bala contra o vidro da janela suja. Ela riu mais ainda, os dentes amarelados rangendo até, por um segundo brutal e traiçoeiro, empurrar minha cara no colchão rasgado do sofá. Catalina queria era visão: visão do jogo fino, dos diamantes fresquinhos que só garotos safados com rosto de anjo conseguiam catar. E ela gostava de me ver na linha para ter seu mimo de adulto consentido, natural e espontâneo. “Escuta, escuta... Sabe o que a gente precisa?” Ofegante, passando a mão no meu queixo, a ponta dos dedos latejada do calor do motor de semana e noite fechada. Eu arregalei os olhos. Ela mordia as palavras arrastadas, os olho rindo que nem menina doida com presente embrulhado. “Precisamos ir num desses... como chama? Dinâmico. Rima. Negócio dos carros de corrida com biribinha alta, falatório, mulher mostrando a quatrocenta... É isso aí, tesouro.”

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