Capítulo Um: A Sombra na Clareira O vento que descia das montanhas de Maine não era apenas frio; ele carregava um sussurro, uma promessa antiga e ruim. Na cidade de Haven’s Creek, outubro não chegava com folhas douradas e cheiro de maçã, mas com um silêncio pesado que se instalava sobre os telhados de zinco e as ruas vazias. Os moradores chamavam de “o Murmúrio”, e todos sabiam que quando ele começava, era melhor trancar as portas antes do anoitecer. Foi nesse silêncio que Elmer Daws encontrou a coisa na Clareira dos Finnigan. Elmer, um homem cujo rosto parecia ter sido talhado a machado por gerações de invernos rigorosos e trabalho duro, não era dado a fantasias. Aos sessenta e dois anos, acreditava apenas no que seus olhos viam e nas dores reais nas suas juntas, previsíveis como o nascer do sol. Ele estava caçando, ou tentando caçar, um veado que lhe escapara na semana anterior. A floresta ao redor de Haven’s Creek era densa, uma tapeçaria úmida de pinheiros, abetos e árvores decíduas que já haviam perdido suas folhas, seus galhos esqueléticos riscando o céu de chumbo como ossos. A Clareira dos Finnigan não era um lugar para se estar ao entardecer. Todos sabiam disso. Era uma mancha circular de terra estéril, com cerca de trinta metros de diâmetro, onde nada crescia – nem grama, nem musgo, nem mesmo cogumelos fedorentos. No centro, havia uma pedra grande, plana e escura, que parecia suar uma umidade oleosa mesmo nos dias mais secos. Diziam que os Finnigan, uma família que desaparecera na década de 40 sem deixar rasto, realizavam ali “reuniões” estranhas à luz da lua. As crianças da cidade inventavam rimas sobre isso: *Na Clareira Finnigan, não pise na pedra / Ou você vira parte da história que não é contada.* Elmer não deu atenção às rimas de criança. Mas deu atenção ao cheiro. Era um odor doce e podre, como mel misturado com carne em decomposição. Pairou no ar frio, contrapondo-se ao cheiro limpo de pinheiro e terra molhada. Ele parou, o rifle Winchester .30-30 firmado contra o ombro, os olhos estreitados. O veado – um belo macho de oito pontas – estava parado à beira da clareira, imóvel. Não comia. Não farejava o ar. Estava apenas… parado, olhando para a pedra escura. “Maluco”, Elmer murmurou para si mesmo, mas seu dedo coçou no gatilho. Algo estava errado. O ar parecia mais pesado ali, mais denso, como se estivesse tentando impedi-lo de respirar. Foi então que viu a sombra. Não era a sombra de uma árvore ou de uma nuvem passando pelo sol fraco. Esta se movia contra a lógica, fluindo da pedra como fumaça espessa, mas sólida. Não tinha uma forma definida – era uma mancha de escuridão mais profunda que o resto da floresta, que se contorcia e pulsava. E à medida que se movia, o silêncio ao redor se tornou absoluto. Os sons da floresta – o farfalhar de esquilos, o canto distante de um corvo, o sussurro do vento – morreram de uma vez. O veado finalmente se moveu. Virou a cabeça lentamente, com uma rigidez mecânica, e olhou para Elmer. Seus olhos, antes negros e brilhantes, agora pareciam opacos, leitosos, como os de um peixe morto há dias na beira do lago. Então, sem pressa, o animal se virou e caminhou em direção à sombra. Elmer observou, paralisado por um fascínio horrorizado. O veado não demonstrou medo. Entrou na mancha de escuridão, e por um momento, sua silhueta foi visível – depois, começou a se desfazer. Não como se estivesse sendo dilacerado, mas como se estivesse se desfazendo, desmanchando-se como açúcar na água. Os chifres, o pelo, as patas, tudo se dissolveu naquela escuridão pulsante. Em segundos, não havia nada. Apenas a sombra, um pouco maior agora, um pouco mais *satisfeita*. E então, a sombra virou-se para Elmer. Ele não a viu com olhos – não havia rosto, nem características. Mas sentiu a atenção dela, um foco de intenção pura e antiga que se fixou nele como um peso físico. O cheiro doce e podre intensificou-se, enchendo sua boca com um gosto de metal e mel azedo. O instinto primordial, aquele que fica mais profundo do que a coragem ou a razão, finalmente falou mais alto. Elmer Daws soltou o rifle – a arma caiu na folhagem úmida com um baque surdo – e correu. Ele correu como não corria desde que era um garoto perseguido pelo cachorro raivoso dos Garson. Correu sem olhar para trás, com o coração martelando contra as costelas como um pássaro preso. Galhos o arranharam no rosto, raízes tentaram agarrar seus pés, mas ele não parou. Só quando a floresta começou a clarear e viu o primeiro telhado de Haven’s Creek à distância é que ele ousou diminuir o passo, ofegante, o vapor saindo de sua boca em nuvens frenéticas. Olhou para trás, para a parede escura de árvores. Não havia nada. Apenas a floresta silenciosa sob o céu de outono. Mas no bolso do seu casaco de caça, onde antes havia apenas um maço de cigarros e um isqueiro Zippo, agora havia algo mais. Algo frio e liso. Com mãos trêmulas, Elmer enfiou a mão no bolso e puxou o objeto. Era uma pedra. Pequena, do tamanho de uma moeda de meio dólar, perfeitamente lisa e escura como a noite. E estava quente. Não com o calor do corpo, mas com uma calorzinho baixo e constante, como uma brasa coberta por cinzas. Na superfície, quase imperceptível a não ser que a luz a atingisse de um certo ângulo, havia uma marca. Parecia uma espiral, ou talvez um olho muito estreito, muito antigo. Elmer segurou a pedra na palma da mão, o medo dando lugar a uma perplexidade gelada. Onde ela tinha vindo? Como foi parar no seu bolso? Ele ouviu um som. Um sussurro baixo, vindo não da floresta, mas da própria pedra. Ou talvez de dentro da sua própria cabeça. Era uma voz sem palavras, apenas uma intenção, um convite sussurrado. *Venha de volta*, parecia dizer. *Venha de volta para a clareira.* Com um tremor de nojo, Elmer jogou a pedra longe, na vala ao lado da estrada de terra. Ela caiu na água suja com um ploft insignificante. Ele foi para casa, para sua cabana silenciosa na borda da cidade. Ferveu água para café na velha fogão a lenha, mas não conseguiu tirar o gosto de mel podre da boca. Naquela noite, ele não dormiu. Ficou sentado na sua poltrona, olhando para as chamas, o rifle agora limpo e recarregado ao seu lado. Fora, o vento voltou a soprar. E com ele, vinha o Murmúrio. Na manhã seguinte, a pedra estava de volta. No capacho, diante da sua porta. E Elmer Daws sabia, com uma certeza que gelou sua medula até a raiz, que a coisa da Clareira dos Finnigan não tinha acabado com ele. Apenas começara.

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