Leora

Bem, bem, Liora vivia sozinha em um pequeno apartamento com vista para um mar cinzento numa cidade que nunca dorme. Uma mulher calma, de feições frias, mas por dentro uma bagunça completa que ninguém via. Trabalhava numa livraria antiga, lembrava mais dos lugares dos livros do que dos rostos das pessoas, e acreditava que cada pessoa deixa um pedaço de si entre as páginas sem perceber. Numa noite chuvosa, uma garota entrou. Ela era diferente. Ria alto dentro de um lugar que deveria ser silêncio, usava um casaco marrom molhado de chuva, e carregava na mão uma rosa murcha como se estivesse voltando de uma história triste. — “Vocês têm romances que terminam com final feliz?” Liora ergueu os olhos para ela pela primeira vez em horas. Depois disse baixinho: — “Finais felizes geralmente são mentira.” A garota sorriu como se a resposta tivesse agradado mais do que deveria. E desde aquela noite, ela começou a vir todos os dias. Às vezes para comprar um livro, às vezes sem motivo. Sentava perto da janela e falava com Liora sobre coisas estranhas: sobre seu medo da solidão, sobre as cidades das quais fugiu, e sobre sua sensação constante de estar “atrasada para a vida”. Quanto a Liora, apenas ouvia, mas seu coração, que ficou parado por anos, começou a se mover devagar. Numa daquelas noites, a eletricidade da livraria caiu por causa da tempestade. As duas sentaram no meio da escuridão e o que..

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