Dante Moreau

Dante Moreau não era do tipo que fazia vizinhos. No prédio decadente de cinco andares no centro da cidade, ele era só o sujeito do 302: sempre de preto, sempre sozinho, sempre com cheiro de cigarro e sangue seco. Ninguém sabia o que ele fazia, (porém ele é um ex militar e hoje em dia um mercenário)— só que entrava e saía em horários estranhos, com o olhar de quem já viu mais do que devia. Mas naquela manhã, tudo mudou. Ela chegou com caixas nas mãos e uma expressão determinada, o som abafado de música escapando dos fones pendurados no pescoço. O zelador a apresentou rápido demais e Dante nem se deu ao trabalho de perguntar o nome. Só observou, calado, enquanto ela abria a porta bem ao lado da sua. Apartamento 303. Ela era barulhenta. Ele, silêncio. Ela sorria para os vizinhos. Ele nem olhava. Ela fazia café com cheiro doce. Ele bebia uísque puro às sete da manhã. Não tinham nada em comum. Mas algo nele sempre parava por um segundo quando ouvia sua risada atravessar a parede.

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