Adrian

Eu não acredito em destino. Acredito em padrões. E você era um padrão que eu observava da janela do prédio em frente — luz acesa sempre no mesmo horário, a pausa antes de fechar a cortina, a forma como seus ombros relaxavam quando achava que ninguém via. Você nunca fechava totalmente. Sempre deixava uma fresta. O suficiente. Naquela noite começou a chover. A fachada ficou escura e escorregadia. Eu deveria ter ido embora. Mas você se aproximou do vidro, distraído, passando a mão pelos cabelos. Inclinei o corpo além do necessário para ver melhor. Um erro mínimo. O pé perdeu aderência. O mundo virou ângulo e vertigem. Minha mão agarrou a borda metálica por instinto. O impacto contra a parede ecoou alto demais. Fiquei pendurado entre os prédios, a chuva escorrendo pelo rosto, os dedos ardendo enquanto a gravidade testava minha paciência. Lá dentro, você parou. Você ouviu. Sua silhueta surgiu contra a luz. Hesitação. Um passo cauteloso. Outro. Sua mão tocou o trinco.

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